“Os personagens dos meus relatos não são invenções, são constatações. Eles me assustam porque vivem, porque persistem, porque sabem mais coisas do que eu. Quando escrevo, não sou aquele que dispõe, mas aquele que escuta. O que se escreve não é o que eu queria escrever. Muitas vezes compreendo tarde demais o que a frase decidiu em meu lugar. Por vezes reconheço nessas figuras uma lógica que nunca vivi conscientemente, mas que me pertence de modo mais íntimo do que meus pensamentos cotidianos. Elas agem como se fossem autônomas e, no entanto, sinto que lhes dei nascimento sem o saber. Esse paradoxo me esgota. Escrever significa expor-se a ser ultrapassado pelo que se produz. Não posso dizer que essas figuras sejam ‘eu’. Essa explicação é simples demais e confortável demais. Mas tampouco posso dizer que me sejam estranhas. Elas se mantêm numa zona onde não sou nem mestre nem ausente.”
Diários de Franz Kafka, tradução de Marthe Robert, Gallimard
Igniatius sente que algo nele mudou. Ele está perdido no jogo de papéis que se desenrola dentro de si mesmo. Já não entende nada… exceto que não é mais apenas um autor que inventa personagens. Ele é aquele que descobre que aqueles que considerava seus personagens não são estranhos. Eles não são nada além de partes de si mesmo que, se se reconhecem como personagens “inventados”, ainda não se conhecem por dentro de Igniatius. Para ser mais claro: Igniatius, quando é Don Carotte, conhece-o apenas como companheiro de Sang Chaud (que por sua vez se tornou Don Carotte) e conhece Anatole apenas como aquilo em que Don Carotte se tornou. Ele sabe agora, intelectualmente, que cada um deles é, à sua maneira, uma parte de si mesmo… mas seu corpo nada sabe disso e, ainda assim, age. É por isso que escreve a Lucian para lhe comunicar sua inquietação e seu desamparo…
Caro Lucian,
Escrevo-lhe sem saber exatamente o que procuro preservar com esta carta, apesar dos obscuros bastidores do meu cérebro, a não ser talvez a própria possibilidade de continuar a me reconhecer no que escrevo. Algo mudou, não de forma brusca, mas com essa lentidão insidiosa que torna toda certeza suspeita. Algo atravessou um limiar. Já não tenho certeza de estar jogando, e essa incerteza me inquieta mais do que teria inquietado uma perda mais nítida. Tudo parece estar em seu lugar, mas a própria evidência do mundo já não coincide com a experiência que vivo.
Durante muito tempo acreditei ser um autor no sentido mais comum do termo. Eu inventava figuras, fazia-as falar. Pensava mantê-las à distância, como quem observa um mecanismo cujo funcionamento conhece. Hoje descubro que essa distância era apenas uma convenção. Esses personagens não me são estranhos. Não vieram a mim do exterior. Eles se ergueram a partir de um lugar que eu nunca me dei ao trabalho de examinar.
Sei, intelectualmente, o que isso significa. Poderia dizer-lhe, com as palavras adequadas, que Don Carotte, Sang Chaud, Anatole não são mais do que partes de mim mesmo. Essa formulação me tranquiliza a baixo custo. Dá a ilusão de um saber dominado. Mas esse saber não me alcança onde deveria. Meu corpo, por sua vez, nada sabe disso. Ele continua a agir como se essas figuras tivessem autonomia própria, como se eu pudesse encontrá-las sem reconhecê-las.
Quando sou Don Carotte, conheço-o apenas em sua relação com Sang Chaud. Não o percebo como aquilo que ele é em mim, mas como um companheiro, quase uma testemunha. Anatole, por sua vez, aparece-me apenas como aquilo em que Don Carotte se tornou, nunca como o que se desloca em mim sob esse novo nome. Tudo se passa como se essas partes se conhecessem entre si, falassem, se analisassem, sem jamais me dar acesso ao seu ponto de origem.
Esse descompasso me assusta mais do que quero admitir. Descubro uma discordância entre o que compreendo e o que acontece. Posso nomear. Posso explicar. Mas, ao mesmo tempo, algo age sem me consultar. Não são vozes estranhas, nem personagens autônomos no sentido dramático dessas palavras. É mais turvo. Sou eu, sem ser eu tal como me conheço.
Sinto-me preso a um jogo de papéis cujas regras perdi. Reconheço as máscaras, sei de onde vêm, mas já não consigo depô-las voluntariamente. Elas não me invadem. Movem-se em mim segundo uma lógica que me escapa, e é precisamente essa ausência de violência manifesta que me desarma.
Escrevo-lhe porque temo confundir lucidez com resignação. Eu poderia acomodar-me a essa situação, dar-lhe uma forma aceitável, integrá-la ao meu discurso de autor. Mas algo em mim resiste a essa elegância. Sinto que, se continuar assim sem falar disso, corro o risco de me refugiar numa justificativa que mascararia meu verdadeiro desamparo.
Não lhe peço que me diga quem sou em tudo isso. Peço apenas que me ajude a compreender como viver com esse descompasso entre o que sei e o que faço, entre o que nomeio e o que age. Tenho a sensação de que esses personagens me conhecem melhor do que eu me conheço, e esse pensamento, como pode imaginar, não me deixa em paz.
Receba esta carta como o sinal de uma inquietação que já não consigo manter à distância e como a prova de que já não sei muito bem onde começa aquele que escreve.
Com uma sinceridade que já não se dissimula,
Igniatius

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