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O ano começa em silêncio, quase em sono.
O circo, desertado, não está morto, repousa. Dorme, a cabeça virada para a madrugada que hesita atrás da lona. Um discreto rubor, entre as duas abas do cortinado da noite: um fogo adormece.
A primeira luz de janeiro desliza por baixo da lona como uma mão tímida, a roçar um lençol que ainda não se ousa erguer. O circo exala um sopro novo, o sopro do ano nascente. Avança às apalpadelas na sua própria escuridão, como uma criança que explora o quarto onde acaba de nascer. Os cortinados esticam-se, arqueiam, franzem. A própria matéria do mundo desperta.
A primeira luz de janeiro desliza por baixo da lona como uma mão tímida, a roçar um lençol que ainda não se ousa erguer. O circo exala um sopro novo, o sopro do ano nascente. Avança às apalpadelas na sua própria escuridão, como uma criança que explora o quarto onde acaba de nascer. Os cortinados esticam-se, arqueiam, franzem. A própria matéria do mundo desperta.
Fevereiro, um segundo pulsar que se encosta a esse arrepio. O frio mistura-se com o fogo, e dessa fricção suave nasce um primeiro prazer, frágil, quase secreto. O circo ainda está fechado, mas o seu centro irradia um desejo surdo, como se o ano, antes de viver, já quisesse oferecer-se.
Depois março ergue-se, e o vulcão interior, um coração antigo esquecido sob as tábuas, abre de súbito os seus lábios de rocha. Uma erupção sobe, um jacto de lava, um grito da terra que atravessa o céu. Mastros e postes, presos por cordas, tremem em toda a fibra da sua madeira.
Um corpo gemendo, tomado por um espasmo luminoso.Um clarão demasiado intenso para se esconder. A terra sobe ao céu e o céu desce à terra, um entra no outro num gesto tão profundo que até os cortinados, sacudidos, tentam em vão reter o segredo. O fogo, pai de tudo, brinca a desfazer-se de si próprio.
Um corpo gemendo, tomado por um espasmo luminoso.Um clarão demasiado intenso para se esconder. A terra sobe ao céu e o céu desce à terra, um entra no outro num gesto tão profundo que até os cortinados, sacudidos, tentam em vão reter o segredo. O fogo, pai de tudo, brinca a desfazer-se de si próprio.
Abril acalma o incêndio. Entremeia a lona como se entreabre um casaco após a tempestade. Chuvas finas alisam a pele do circo como dedos a passar sobre uma dor que se apazigua. Tudo se torna húmido, flexível, pronto a acolher. A pista exala o cheiro de terra quente, de promessas tímidas ainda recolhidas.
Em maio, os cortinados respiram o largo. Ondulam, cavam-se, estendem-se finalmente como um torso que se enche de ar, oferecendo o peito ao sol. O circo é uma câmara floral. O ouro vibra em cada palha. Cada tábua suspira. Entra-se neste espaço como se entra num fruto maduro que se desnuda.
Junho e julho têm a doçura brutal dos amantes sem reserva. O sol bate na lona do chapitô, que se estica, relaxa e devolve o calor. As cordas vibram de um desejo contido. As sombras do circo ondulam como ancas de árvores. No ar, o fumo eleva-se em volutas sagradas, via láctea desviada… ou talvez uma voz láctea, uma voz não pronunciada, feita do que os corpos vivem quando se abandonam.
Junho e julho têm a doçura brutal dos amantes sem reserva. O sol bate na lona do chapitô, que se estica, relaxa e devolve o calor. As cordas vibram de um desejo contido. As sombras do circo ondulam como ancas de árvores. No ar, o fumo eleva-se em volutas sagradas, via láctea desviada… ou talvez uma voz láctea, uma voz não pronunciada, feita do que os corpos vivem quando se abandonam.
Depois agosto, amplo, maciço, soberano, toma o circo inteiro no seu abraço de fogo. As tábuas ardem. O ar treme. O mundo parece atingir o seu auge, o seu paroxismo, o ponto além do qual já não se pode avançar sem se consumir.
E no entanto setembro já desliza sobre as brasas como um lençol leve pousado sobre dois corpos que reencontram o fôlego.
Outubro ergue mal o cortinado; um sopro fresco passa. Quando a sombra do vulcão se alonga, as folhas caem como fitas desfeitas. O circo escurece, mas ainda não se dissolve. É um fim que não quer acabar.
Novembro pousa uma mão sobre a madeira nua, como um adeus. Os cordames desfazem-se. Algo em nós recolhe-se, não sem ternura. As bancadas gemem suavemente, não de dor, mas de cansaço feliz. O ano enrola-se em si mesmo, reúne-se para a sua última metamorfose.
Outubro ergue mal o cortinado; um sopro fresco passa. Quando a sombra do vulcão se alonga, as folhas caem como fitas desfeitas. O circo escurece, mas ainda não se dissolve. É um fim que não quer acabar.
Novembro pousa uma mão sobre a madeira nua, como um adeus. Os cordames desfazem-se. Algo em nós recolhe-se, não sem ternura. As bancadas gemem suavemente, não de dor, mas de cansaço feliz. O ano enrola-se em si mesmo, reúne-se para a sua última metamorfose.
E dezembro é o último amante. Chega no coração da noite, sem ruído. Depois pousa uma única mão sobre a lona. E todo o circo dobra-se, curva-se e rende-se. Os cortinados caem, longo bailado, num frêmito lento, como roupas a deslizarem pelo chão. A estrutura, ofegante, relaxa; o fumo do passado sobe em espiral estrelada, pronto a misturar-se com o céu.
As fronteiras entre os dias desaparecem. O antigo e o novo dão-se as mãos. O fim torna-se começo. O nascimento e a agonia confundem-se num beijo. No vazio onde tudo parece desfazer-se, um ser ergue-se já. Carrega o peso de doze meses, o perfume das quatro estações, a voz do tempo inteiro. É a soma do mundo, virgem como na primeira manhã do cosmos. Não se pode dizer se acaba de nascer ou de regressar. Não se pode saber se é futuro ou passado. O tempo, na sua boca, já não tem limite. O novo ano abre os olhos. E a tenda, dobrada como um corpo abraçado, abre-se novamente, suave, e muda ainda, antes de se apagar.
As fronteiras entre os dias desaparecem. O antigo e o novo dão-se as mãos. O fim torna-se começo. O nascimento e a agonia confundem-se num beijo. No vazio onde tudo parece desfazer-se, um ser ergue-se já. Carrega o peso de doze meses, o perfume das quatro estações, a voz do tempo inteiro. É a soma do mundo, virgem como na primeira manhã do cosmos. Não se pode dizer se acaba de nascer ou de regressar. Não se pode saber se é futuro ou passado. O tempo, na sua boca, já não tem limite. O novo ano abre os olhos. E a tenda, dobrada como um corpo abraçado, abre-se novamente, suave, e muda ainda, antes de se apagar.
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