“Escrever é entregar-se à exigência de um afastamento no qual o ‘eu’ já não se mantém como centro. Aquele que escreve já está separado do que escreve, não por cálculo, mas porque a escrita instaura um espaço onde ninguém pode permanecer presente a si mesmo.
Esse espaço é impessoal: não uma ausência, mas uma neutralidade ativa, na qual o que se diz já não pertence a ninguém. A distância aí não é um simples intervalo; é a própria condição pela qual algo pode aparecer sem ser imediatamente retomado pelo hábito, pelo domínio, pelo poder de nomear.
O que assim se escreve não procura ser apreendido. Mantém-se numa relação de retirada, e é nessa retirada, nessa separação que dissocia, que a palavra se torna legível, não porque explique, mas porque deixa ser aquilo que não pretende conter.”
Esse espaço é impessoal: não uma ausência, mas uma neutralidade ativa, na qual o que se diz já não pertence a ninguém. A distância aí não é um simples intervalo; é a própria condição pela qual algo pode aparecer sem ser imediatamente retomado pelo hábito, pelo domínio, pelo poder de nomear.
O que assim se escreve não procura ser apreendido. Mantém-se numa relação de retirada, e é nessa retirada, nessa separação que dissocia, que a palavra se torna legível, não porque explique, mas porque deixa ser aquilo que não pretende conter.”
Maurice Blanchot, O Espaço Literário
Caro Félix,
Navegando num oceano de pensamentos, lutando contra ventos contrários e contra o poder enfeitiçador do hábito, escrevo-lhe numa forma que talvez lhe pareça inutilmente trabalhada, mas continuo a acreditar que essa via indireta é agora a única que nos permite pensar sem sermos imediatamente alcançados por aquilo que acreditávamos descrever. A distância que ela instaura não é um ornamento; ela dissocia e torna-se uma condição de legibilidade.
Quero falar-lhe de Igniatius, não mais apenas através de seus relatos, mas a partir do efeito que ele produz — um efeito que se repete com uma constância inquietante. No início, considerei o que observava como uma hipótese entre outras. Hoje percebo que ela se impõe com clareza crescente, quase sem que eu me dê conta.
Igniatius se apresenta como autor. Ele se abriga nessa posição com certa elegância. Fala de seus personagens como de seres que molda. Eu diria que ele os corrige e os conduz resolutamente a uma determinada forma. No entanto, o que venho percebendo há algum tempo contradiz esse domínio exibido e me desestabiliza um pouco. As figuras que ele evoca não se comportam como criações dóceis. Elas surgem e se transformam sem lhe pedir assentimento. Ele então se esforça por dar a esses movimentos uma justificativa estética, como se o enquadramento da escrita fosse suficiente para conter aquilo que lhe escapa.
É aí, a meu ver, que se desenha — literalmente — uma linha mais inquietante. Igniatius não cria tanto seus personagens quanto lhes oferece um direito de passagem. Eles parecem provir menos de uma invenção voluntária do que de uma forma de possessão que, depois, Igniatius tenta racionalizar. Sob o pretexto de ser aquele que escreve, ele se torna aquele por meio de quem algo acontece… sem ser verdadeiramente o iniciador. Essa confusão, longe de alarmá-lo, por vezes parece tranquilizá-lo… o que não é o meu caso.
Nessa perspectiva, a revolta dos personagens deixa de ser uma metáfora conveniente. Torna-se um sintoma. O desaparecimento de Don Carotte, seguido de seu reaparecimento sob o nome de Anatole, não decorre de uma simples escolha narrativa. Corresponde a um deslocamento identitário que Igniatius já não governa. Ele fala dessa mudança como de uma necessidade interna ao relato, mas percebo sobretudo seu esforço para acompanhar um movimento já iniciado.
O caso de Sang Chaud parece-me ainda mais revelador. Essa figura, inicialmente periférica, se assim posso dizer, ocupa agora um espaço deixado vago sem que Igniatius tenha realmente decidido essa substituição. Ele a aceita a posteriori. Explica-a integrando-a ao seu discurso. Mas não a provocou. Mais uma vez, o autor chega depois do acontecimento.
Não emprego levianamente a expressão “transtorno de personalidade”. Não falo de uma fragmentação espetacular, nem de uma ruptura franca com a realidade. Falo de uma porosidade persistente entre as posições. Falo também de uma dificuldade em manter uma fronteira estável entre aquele que narra e aqueles que aparecem em seu relato. Essa porosidade se manifesta menos no que Igniatius afirma do que no que ele tenta justificar.
Você me dirá que a escrita sempre funcionou assim, que ela autoriza esses deslizamentos. Eu lhe responderei que, em Igniatius, o movimento já não vai do autor ao texto, mas do texto ao autor. Ele se vê afetado por suas próprias figuras como se fosse o lugar de acolhimento delas, e não a sua fonte.
Confio-lhe essa leitura com prudência. Ela não tem nada de definitiva. Ela me ajuda, contudo, a compreender por que esses personagens parecem se insurgir. Eles mudam de nome. Ocupam outros lugares. Não se rebelam contra um mestre excessivamente severo. Eles se aproveitam de uma autoridade já fragilizada.
Escrevo-lhe isso sabendo que essa hipótese talvez desloque o seu olhar, assim como deslocou o meu. É precisamente esse deslocamento que procuro preservar, antes que uma normalidade demasiado apressada e insistente venha fechá-lo novamente.
Com uma atenção que ainda pretende manter-se lúcida,
Lucian

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