“Este é um livro de boa-fé, leitor.
Ele te adverte desde a entrada que não me propus nele nenhum fim senão doméstico e privado: não tive consideração alguma pelo teu serviço, nem pela minha glória. Minhas forças não são capazes de tal desígnio. Eu o consagrei à conveniência particular de meus parentes e amigos, para que, tendo-me perdido (o que em breve lhes há de acontecer), possam nele reencontrar alguns traços de minhas condições e humores, e por esse meio alimentar uma conhecimento mais inteiro e mais vivo que tiveram de mim. Se fosse para buscar o favor do mundo, eu me teria melhor adornado e me apresentaria com um porte estudado. Quero que me vejam aqui em minha maneira simples, natural e ordinária, sem esforço nem artifício: pois sou eu que me pinto. Meus defeitos se lerão aqui ao vivo, e minha forma ingênua, tanto quanto a reverência pública o permitiu. Assim, leitor, eu mesmo sou a matéria do meu livro: não é razoável que empregues teu lazer num assunto tão frívolo e tão vão. Adeus.”
Michel de Montaigne, Ensaios
Entre duas cartas, ocupemo-nos dos personagens de Igniatius. Don Carotte tornou-se Anatole. Sang Chaud tornou-se Don Carotte (à sua imagem). Eles são dois… mas como três… e falam entre si sobre Igniatius e Lucian, cuja existência conhecem curiosamente, sem que Igniatius e Lucian disso suspeitem. A pergunta que Sang Chaud, tornado Don Carotte, faz é: como Anatole tem conhecimento da existência de Igniatius e de Lucian. Anatole tentará explicá-lo.
– Nós somos… enfim, éramos… e ainda somos… as criaturas de Igniatius, e ele consulta um psicanalista chamado Lucian.
Anatole
– Parece-me… ao mesmo tempo que… o próprio tempo só me é dado sob essa condição. Quando minha atenção se dispersa, deslizando de um pensamento a outro, preocupada com o que foi ou com o que poderia ser, o presente reduz-se a uma superfície fina que atravesso sem senti-la. As horas passam, deixando atrás de si uma sensação de vazio, semelhante àquela produzida por certos sonhos esquecidos depressa demais. Mas às vezes basta um detalhe quase insignificante—o frêmito de um tecido, um odor reconhecível entre todos, a maneira particular como uma frase se encerra—para que minha atenção se recolha, e então o tempo deixa de escapar: ele se espessa, se dilata, torna-se uma matéria na qual posso permanecer, como se o instante, até então fugitivo, finalmente consentisse em me receber.
Percebo então, com um desconforto que não consigo dissipar por completo, que essa atenção que acredito ser minha me escapa mais vezes do que admito. Surpreendo-me a escutar sem ouvir, a olhar sem ver, a responder antes mesmo de acolher a palavra do outro, e compreendo que minha desatenção nem sempre é inocente. Ela é às vezes uma forma de me proteger, às vezes uma recusa discreta de me deixar afetar. Estar atento a alguém, sinto, não é apenas conceder-lhe tempo; é reconhecer-lhe uma existência que pode me obrigar… ou me transformar—e talvez seja isso que eu tema.
B%20copie.jpg)

Aucun commentaire:
Enregistrer un commentaire