vendredi 31 juillet 2026

(162) A abracadabrante história da Criança Lua


Onde se pode ver, de forma particularmente marcante, que aquilo que Félix escreve não trata apenas de duas formas de escrita. Há já algum tempo que hesita... Desde que Lucian e Igniatius desapareceram na natureza... Deve ou não deve escrever sobre isso? Livro ou jornal... Começa por querer descrever dois regimes do tempo e acaba por dar a entender que talvez ainda seja possível levar esta intuição mais longe.



Diário de Félix
O jornal talvez não se oponha ao livro. É aquilo através do qual o livro permanece exposto ao mundo. O livro, por sua vez, é aquilo através do qual o jornal escapa à imediaticidade que o condenaria a não ser mais do que uma sucessão de dias. Um recolhe os abalos do acontecimento; o outro descobre lentamente que um acontecimento talvez só se tenha tornado verdadeiramente acontecimento no momento em que encontrou a forma capaz de o sustentar.
Mas esta diferença não reside apenas na duração. Reside no tipo de atenção que ambos exigem.
O jornal volta o olhar para aquilo que acontece. Permanece deliberadamente inacabado, porque o próprio mundo também o está. Cada número pressupõe que amanhã alguma coisa virá ainda interromper aquilo que hoje parecia concluído. A sua verdade é a da abertura. Mesmo quando se engana, testemunha essa exposição permanente ao real.
O livro procede quase ao contrário. Não procura, antes de mais, aquilo que acontece, mas aquilo que, em tudo o que acontece, continua silenciosamente a pedir uma forma. O seu tempo não é o da atualidade, mas o da decantação. Não responde mais depressa. Responde mais lentamente, até que as circunstâncias deixem de ser apenas circunstâncias.
E, no entanto, esta oposição é enganadora.
Porque um verdadeiro jornal nunca é apenas um registo de factos. Já procura a frase que sobreviverá ao dia seguinte. E um verdadeiro livro nunca está inteiramente subtraído ao presente. Permanece atravessado por uma inquietação que pertence ao próprio dia em que é escrito. Nenhum livro escapa completamente ao jornal que o habita; nenhum jornal está desprovido do livro que obscuramente procura nascer no seu interior.
Talvez fosse então necessário renunciar a distinguir estes dois objetos para observar antes o movimento que os faz alternar. A escrita respira. Inspira o mundo sob a forma do jornal; expira-o sob a forma do livro. Entre ambos não passa apenas o tempo. Passa uma transformação. Aquilo que era notícia torna-se memória; aquilo que era memória volta, por vezes, a tornar-se uma força atuante no presente.
É por isso que um livro talvez não seja o contrário de um jornal, mas a sua lenta metamorfose. E um jornal talvez não seja outra coisa senão um livro que ainda se recusa a saber que livro está a tornar-se.
Iria mesmo ao ponto de deslocar uma última fronteira.
Fala-se frequentemente do jornal como do lugar onde se dão notícias do mundo. Mas as notícias nunca vêm apenas do mundo. Vêm também do olhar que, de repente, se torna capaz de ver de outro modo aquilo que, no entanto, já lá estava desde há muito. Uma informação pode ser exata sem revelar absolutamente nada e uma única frase pode, por vezes, modificar duradouramente a nossa maneira de habitar o real. Não é, portanto, apenas o mundo que produz a notícia. É o encontro entre um mundo e uma nova disponibilidade daquele que o recebe.
O mesmo acontece com o livro. Costuma dizer-se que ele conserva. Eu creio, antes, que ele consente. Consente em deixar um pensamento prosseguir o seu próprio movimento até ao ponto em que se torna suficientemente livre para pertencer a outros para além do seu autor. Nesse instante, o livro deixa de ser um objeto. Torna-se uma maneira de continuar alguém. Não repetindo a sua voz, mas permitindo que outra voz vá mais longe graças a ela.
Então, a velha oposição entre o efémero e o duradouro desvanece-se pouco a pouco. Há jornais que envelhecem menos do que certos livros... e há livros que morrem no próprio dia da sua publicação. O que permanece não é o papel, nem a encadernação, nem a periodicidade. O que permanece é a capacidade de um texto reatualizar a atenção. Enquanto uma frase continuar a deslocar, ainda que impercetivelmente, o olhar de quem a lê, ela já não pertence apenas ao seu tempo. Continua a acontecer.
Talvez seja essa, afinal, a sua secreta afinidade. Tanto o jornal como o livro procuram, cada um segundo o seu próprio ritmo, não deter o tempo, mas tornar possível essa estranha experiência em que o presente deixa finalmente de coincidir consigo mesmo.
Talvez seja isso, afinal, escrever... fazer com que um instante, em vez de simplesmente passar, comece.

Aucun commentaire: