«As pessoas não querem de modo algum dar um passo. Estão habituadas a esta organização exterior e negligenciam completamente aquilo que se passa interiormente. E quando se percebe que o mundo sou eu e que eu sou o mundo, então a ação já não é separadora; já não se trata do indivíduo erguido contra a comunidade. Também não se trata da importância do indivíduo e da sua salvação pessoal. Quando se percebe que o mundo sou eu e que eu sou o mundo, então, qualquer que seja a ação empreendida, qualquer que seja a mudança, essa ação, essas mudanças transformarão a consciência do homem na sua totalidade.»
Krishnamurti, O Despertar da Inteligência
Onde Félix continua a análise do desenho que Lucian lhe enviou e onde, cada vez mais, sente a impressão de viajar por si próprio…

Caderno de Félix (segunda parte)
As ondas erguem-se como formas vivas, quase animais. As cordas aparecem então como uma tentativa humana de traçar linhas acima de um mundo fundamentalmente movente.
Isto aproxima-se do universo do cubo vermelho e das espirais marinhas vistas noutros lugares: a vontade de estrutura acima de uma profundidade mais antiga, mais orgânica, mais caótica.
O detalhe do pequeno animal azul em baixo… uma espécie de cão… provavelmente, é também muito importante. Parece minúsculo, quase secundário, contudo age como uma testemunha silenciosa. Olha para a figura suspensa… e poderia segui-la… Poderia também ser interpretado como uma forma reduzida ou primitiva de si mesmo. Uma presença que acompanha a travessia sem poder intervir. Na lógica das figuras, poderia quase ser um duplo discreto, uma consciência lateral, como os papagaios observando sem serem imediatamente vistos.
O que mais me impressiona é que a imagem não transmite qualquer impressão de chegada. Não há horizonte libertador. O movimento parece destinado a continuar indefinidamente. Como se viver consistisse precisamente em aprender a circular nesta rede de tensões sem jamais conseguir sair completamente dela.
Poder-se-ia até ir mais longe: as cordas acabam por se assemelhar às próprias linhas narrativas. Linhas que se cruzam, se enlaçam, regressam, se esticam. A figura torna-se então um ser preso dentro do texto. Avança porque é transportado por essas linhas, mas essas mesmas linhas definem também os limites do seu movimento.
Isto ecoa profundamente a ideia segundo a qual as figuras procuram menos quebrar a sua prisão do que torná-la atravessável.

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