mardi 26 mai 2026

(83) A ambrassadante história da Criança Lua


“Para explicar isto, Bergson toma o exemplo do paradoxo de Zenão, ‘Aquiles e a tartaruga’, que conclui que Aquiles nunca alcançará a tartaruga; veremos porquê. Digamos desde já que a crítica que Bergson dirige a Zenão consiste em confundir o movimento indivisível da corrida de Aquiles com as estações que a corrida parece ocupar no espaço (a soma dos pontos de que falávamos anteriormente). Resumamos e analisemos brevemente este paradoxo: organiza-se uma corrida entre Aquiles e uma tartaruga, mas, para dar todas as hipóteses à tartaruga, concede-se-lhe uma certa vantagem sobre Aquiles. Ora, segundo Zenão, este nunca conseguirá alcançá-la porque, no momento em que Aquiles chegar ao ponto onde a tartaruga se encontrava, ela já terá atingido outro ponto, e assim sucessivamente. Este argumento pretende mostrar que toda reflexão sobre o movimento e sobre o tempo em geral não consegue apreender a sua verdadeira natureza nem coincidir com a experiência.
Para resolver este paradoxo, Bergson vai então reconsiderar inteiramente a maneira como o movimento havia sido pensado até então, uma vez que o movimento escapa, pela sua própria natureza, à inteligência racional, científica e técnica. Analisemos, pois, este paradoxo. No seu esforço para apreender o movimento, a inteligência é levada a decompô-lo em ‘pontos geométricos’, em posições sucessivas e justapostas ligadas entre si por intervalos eles próprios decomponíveis em pontos geométricos, e isto ao infinito. Tem-se então uma série de posições às quais o movimento seria acrescentado posteriormente. Mas então, pergunta Bergson, ‘como poderia o movente coincidir com o imóvel?’ A inteligência racional caracteriza-se por uma atividade espacializante; ela confunde efetivamente o movimento com o espaço percorrido, isto é, o espacial com o temporal. O movimento não pode ser dividido num certo número, ainda que infinito, de pontos geométricos e imóveis. Isso equivale a pensar o tempo segundo o modelo do espaço; ora, estas duas ordens são radicalmente heterogéneas: não possuem nem a mesma estrutura, nem a mesma natureza, nem a mesma função. O espaço é, por natureza, divisível ao infinito em tantos pontos justapostos quanto se queira decompor, enquanto o tempo possui uma natureza que ainda será necessário circunscrever, mas que já se apresenta dotada de uma espessura, de uma simultaneidade irredutível a toda forma de divisão. O movimento não é uma linha onde se alinham e justapõem as posições do corredor. Este erro consiste, portanto, em confundir o trajeto, que é movimento, com a trajetória, que é espaço, pois procura-se decompor o movimento da mesma maneira que se pode decompor o espaço. Ora, o movimento é, para Bergson e por definição, aquilo que não se divide.”


— Pinóquio o Outro pouco se parece com o boneco triunfante dos contos em que a mentira acaba por se tornar moral.
— Algo nele permanece suspenso num estado intermédio, como se a transformação tivesse começado sem jamais consentir em concluir-se.
— Ele conserva ainda a marca da madeira, mas essa madeira parece ter permanecido muito tempo na água salgada, sob a chuva, nos porões, em oficinas abandonadas ou nos bastidores húmidos de um circo que não se sabe se está a ser montado ou desmontado.
— O seu corpo, tal como o próprio circo, dá por vezes a impressão de ter sido montado várias vezes.
— Uma articulação difere ligeiramente da outra.
— Um ombro parece pertencer a um gesto antigo.
— Uma mão parece mais gasta do que o resto do corpo, como se tivesse continuado a procurar alguma coisa muito depois de o movimento ter cessado.




Caderno de Lucian
O seu rosto possui uma estranha doçura fatigada. Nada de expressivo no sentido habitual. O que perturba vem precisamente dessa contenção. Seja qual for a situação, os seus olhos, muitas vezes semicerrados, parecem escutar mais do que olhar. Nele, ver e ouvir tornam-se quase a mesma operação. Poder-se-ia pensar que dorme de pé, mas esse meio-sono corresponde antes a uma forma particular de receber o mundo, como se cada aparição tivesse primeiro de atravessar uma profundidade silenciosa antes de alcançar a superfície do olhar.
O seu nariz, que muitos esperam ver alongar-se espetacularmente, obedece a uma lei diferente. Raramente cresce quando fala. Cresce sobretudo quando escuta palavras que não consegue sustentar interiormente. Não são apenas as mentiras que o transformam, mas as frases inabitáveis. As palavras vazias. As certezas recitadas. As verdades administradas sem risco. O seu corpo inteiro torna-se então uma espécie de instrumento sensível às deformações da linguagem. Como se a madeira de que é feito tivesse conservado a memória das tensões, das fibras e das pressões invisíveis que atravessavam a árvore viva antes de ela ser abatida.
Existe nele uma proximidade secreta com os fragmentos, ou com aquilo que resta depois da separação. Onde os outros procuram unidade, ele percebe costuras… ou cicatrizes. Compreende os seres pelas suas fissuras mais do que pelas suas aparências estáveis. Talvez porque se saiba ele próprio composto. Não fabricado de uma vez por todas, mas continuamente recomposto. O seu corpo dá por vezes a impressão de que uma parte poderia desprender-se sem que o conjunto deixasse, no entanto, de viver. Sobretudo a cabeça parece possuir uma autonomia inquietante. Em certos desenhos, flutua entre duas águas, com os olhos entreabertos, como se a separação tivesse tornado possível outra forma de escuta.
Essa imagem toca algo de antigo. Os membros dispersos de Osíris. As relíquias. As estátuas partidas cujo simples fragmento basta ainda para fazer sentir uma presença inteira. Pinóquio o Outro pertence a essa lógica estranha em que a parte continua a transportar a memória do todo. Nele, o corpo nunca está completamente fechado. Permanece atravessado por linhas de reparação, montagem e recomposição. Cada cicatriz parece menos uma ferida do que um lugar de passagem.
Do circo conservou uma maneira particular de habitar o espaço. Caminha como alguém que ainda conhece a existência da pista circular. Mesmo imóvel, parece ligeiramente arrastado por uma antiga rotação. Contudo, algo nele recusa agora continuar a girar em círculos. Talvez seja aí que começa a sua proximidade com Don Carotte. Ambos trazem a marca de um movimento que procura uma saída para fora da repetição.
Quando encontra o Menino Lua, parece ocorrer um reconhecimento silencioso. Não porque se pareçam exteriormente, mas porque ambos vivem numa relação deslocada com o mundo visível. O Menino Lua percebe intensidades que os outros atravessam sem sentir. Pinóquio o Outro, por sua vez, percebe as tensões invisíveis que atravessam as palavras, os gestos e os relatos. Um escuta quase o fundo difuso do mundo. O outro ouve os estalidos da linguagem antes mesmo de eles se tornarem perceptíveis aos demais.
Existe também nele uma inquietação ligada ao facto de ser narrado. Como se cada narrativa arriscasse reduzi-lo a um papel já conhecido. Tolera mal as histórias demasiado fechadas sobre o seu próprio significado. Sempre que se tenta fixá-lo numa identidade estável, algo se desarticula dentro dele. Uma mão pende de maneira diferente. O olhar retira-se. O corpo parece perder a sua coerência visível. Pelo contrário, quando uma palavra deixa aberta a possibilidade de transformação, os seus movimentos reencontram uma fluidez quase humana — ou talvez mais do que humana, pois conservam ainda a memória da madeira, da corda, da suspensão e do silêncio.
Acontece que o tomam por uma figura melancólica. Seria um erro. A sua gravidade vem menos da tristeza do que de uma espécie de lucidez material. Ele sabe que os seres são feitos de montagens precárias. Que os nomes se mantêm por fios invisíveis. Que toda identidade permanece uma costura. Mas longe de procurar esconder essa condição, parece habitá-la com uma paciência singular, como um restaurador de fragmentos antigos que compreende que a fissura faz agora parte da própria obra.
Assim, Pinóquio o Outro torna-se pouco a pouco algo diferente de uma personagem. Assemelha-se antes a uma superfície sensível onde aparecem as tensões secretas do próprio livro. As retomadas. Os deslocamentos de voz. Os fragmentos vindos de épocas diferentes. Os pedaços de cadernos. Os desenhos sem assinatura. As narrativas que mudam de centro à medida que são lidas. Talvez seja ele quem melhor compreende que toda a história não procura produzir uma forma perfeita, mas uma forma capaz de continuar a transformar-se sem se destruir.

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