Onde Félix tenta compreender como funcionam o espírito e a relação com o mundo da Criança Lua.
Caderno de Félix
Esta imagem mostra menos uma paisagem do que um sistema vivo de perceção. Tudo o que nela aparece parece pertencer a uma circulação onde ver, projetar, projetar-se, receber para interpretar se tornam inseparáveis.
O Menino Lua, minúsculo diante da imensidão noturna, avança em direção a uma aparição gigantesca que parece flutuar acima do mar e das ruínas. Contudo, essa aparição não é um fenómeno exterior no sentido comum. A grande proliferação luminosa, vegetal, neuronal ou cósmica parece-me ser a projeção visível do que acontece no interior do chapéu do Menino Lua.
Esse chapéu não é uma simples peça de roupa. Funciona como um espaço interior desmedido. Uma câmara noturna de perceção onde crescem formas ainda instáveis: memórias, intuições, visões, sensações, associações, figuras incompletas. E essa interioridade não permanece encerrada. Ela transborda para o mundo visível. A paisagem torna-se então um ecrã de projeção. O mar, o céu, as ruínas, os pássaros recebem a difusão dessa atividade interior. As ramificações luminosas assemelham-se simultaneamente a raízes, relâmpagos, neurónios, corais, ramos, redes sinápticas. Mas esse caráter múltiplo não decorre apenas de um efeito estético. Corresponde a um estado percetivo ainda anterior às categorias fixas. O Menino Lua projeta um pensamento antes que este se torne conceito.
Essa lógica já estava presente numa imagem anterior, aquela em que o Menino Lua avançava sobre o próprio chapéu como sobre uma barca. O chapéu já surgia aí como um território interior tornado navegável. Aqui o processo ultrapassa uma etapa suplementar: o interior deixa simplesmente de ser habitado; começa a espalhar-se pelo mundo. E essa projeção não é um movimento num só sentido. A proliferação luminosa funciona como um órgão sensorial exteriorizado. Esse órgão, momentaneamente visível, emite e recebe simultaneamente. Projeta formas no real, mas essas formas produzem em retorno novas informações que regressam ao Menino Lua.
Assim, as ramificações funcionam quase como uma rede neuronal tornada visível fora do corpo. Constroem hipóteses sensíveis sobre o mundo, recebem respostas, modificam-se, reconfiguram-se.
A imagem mostra portanto menos uma imaginação do que um circuito percetivo vivo. O Menino Lua projeta. O mundo reage. Essa reação regressa até ele.
E a sua perceção transforma-se a partir desse retorno.
É aqui que os papagaios desempenham o seu papel.
As duas aves pousadas sobre as ruínas fazem e não fazem parte da imagem. São visíveis na cena, mas ocupam também uma posição que excede a própria cena. Parecem leitores internos do fenómeno e consciências pousadas na fronteira entre participação e observação.
Narram o que veem sem jamais descrever formalmente a imagem. A sua palavra não nomeia as formas como o faria uma análise objetiva. Ela acompanha a aparição. Dá-lhe progressivamente sentido. Ora, essa palavra age também sobre a projeção. As formas luminosas assim nomeadas tornam-se imagens… As imagens tornam-se palavras nos papagaios.
As palavras produzem significações.
E essas significações, por caminhos misteriosos, regressam para modificar a perceção inicial do Menino Lua.
Os papagaios deixam então de ser simples comentadores. Tornam-se elementos ativos do próprio sistema percetivo. Quase funções reflexivas separadas do Menino Lua e pousadas à distância sobre as ruínas de um antigo… ou de um futuro mundo.
Mas o mais perturbador encontra-se noutro lugar: o Menino Lua ignora a presença deles. Não sabe que a imagem, da qual nada sabe, lhes é dirigida.
E no entanto toda a projeção parece já estruturada pelo olhar possível deles.
É aqui que o princípio do observador se torna central. Os papagaios não observam uma cena já constituída. A sua observação participa na própria formação da experiência. Mas, inversamente, a projeção parece aguardar o olhar deles. Como se procurasse obscuramente uma testemunha capaz de a fazer regressar a si própria sob a forma de palavra.
A cena torna-se então um ciclo em que o Menino Lua projeta a sua interioridade. Os papagaios recebem essa projeção. A sua receção produz uma interpretação. Essa interpretação transforma a própria projeção.
Assim transformada, a projeção regressa ao Menino Lua. Então a perceção deixa de ser individual. Torna-se circulação.
Os papagaios parecem quase observadores quânticos, num sentido poético. Antes do olhar deles, antes de ser observada, a proliferação luminosa permanece múltipla, indecisa… hesitante por instantes, aberta na maior parte do tempo. Rosto, árvore, cérebro, sol, memória, organismo marinho, rede nervosa coexistem simultaneamente. A palavra deles começa a estabilizar certas formas. Transforma uma proliferação percetiva num mundo narrável.
Mas eles próprios, os papagaios, permanecem presos naquilo que narram. Ocupam as ruínas de antigas estruturas: colunas desmoronadas, vestígios de uma ordem estável onde as separações ainda pareciam possíveis:
sujeito e objeto,
espetador e cena,
dentro e fora,
realidade e representação.
Ora, essas fronteiras já estão a desaparecer.
Os papagaios falam a partir das ruínas dessas antigas distinções enquanto a proliferação luminosa mostra um mundo onde tudo comunica com tudo. Onde as projeções se tornam receções. Onde os observadores modificam a experiência que observam. Onde as palavras agem sobre as visões que as produziram.
Isso reencontra profundamente toda a lógica deste universo…
Lucian está incluído nos desenhos que analisa.
Eu próprio estou incluído na estrutura que supervisiono, tal como o leitor faz parte de um livro que acredita simplesmente ler. Todo o comentário transforma aquilo que comenta.
Os papagaios tornam-se então figuras do próprio leitor, sem os quais o livro e a história permanecem fechados… encerrados…
Os papagaios observam o Menino Lua sem compreender imediatamente que participam na sua projeção. Exatamente como o leitor que acredita observar uma ficção exterior antes de descobrir que o livro já age sobre a sua própria perceção.
Assim a imagem deixa de ser uma simples ilustração.
Torna-se um dispositivo de circulação do olhar.
O olhar passa… do Menino Lua para a projeção… da projeção para os papagaios… dos papagaios para as palavras… das palavras para o leitor… do leitor novamente para a imagem.
E nesse ciclo cada um transforma silenciosamente os outros.
A imensa proliferação luminosa aparece então como a forma visível dessa própria circulação: uma consciência transbordando os seus limites, utilizando o mundo, as ruínas, os pássaros, as palavras e até o leitor como prolongamentos da sua própria perceção.
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