«[…]
teve de admitir que a sua lucidez, o seu apego obstinado ao “juízo racional”, já não o levavam a lado nenhum, pois, embora até então aquela cidade e, por extensão, o mundo não tivessem perdido nada da sua cruel realidade, a partir daquele momento essa realidade cruel, tão terrena, parecia ter-se evaporado e, ao que tudo indicava, de forma irreversível.Era inútil tentar resistir, tinha de admiti-lo: já não conseguiria sair-se com a subtileza das suas fórmulas “à maneira de Eszter”, nem com a retórica que começara a construir; de um modo geral, a superioridade da razão perdera ali todo o sentido. Do mesmo modo, o significado das palavras (como a luz de uma lanterna cuja pilha se gastou) tinha empalidecido, e o objeto ao qual esse significado se ligava desabara sob o peso dos cinquenta anos passados, cedendo lugar ao cenário inverosímil de um Grand Guignol onde toda a palavra sensata e todo o pensamento racional tinham, de forma desconcertante, perdido a sua validade.»
László Krasznahorkai, A Melancolia da Resistência
Cada personagem age como um mastro sustentando uma lona mais vasta do que ele próprio… depois o conjunto desmonta-se… viaja… e depois…
…tudo reaparece noutro lugar… sob outra forma… com as mesmas figuras… com outros nomes. Como se a história permanecesse idêntica enquanto muda constantemente de lugar.
Talvez seja também por isso que Pinóquio o Outro me regressa tantas vezes ao espírito, suspenso de um trapézio desligado. O trapézio pertence ao mundo do circo… mas desprendeu-se do próprio chapitô.
Flutua entre dois apoios. Entre dois mundos.
Como uma personagem que tivesse abandonado a história que a sustentava, continuando contudo a viver segundo as normas e contingências dessa mesma história.
Reparo também que o circo mantém uma relação singular com a queda. Mostra-a… mas não demonstra nada. Desafia-a e transforma-a. O acrobata parece vencer a gravidade… o funâmbulo parece suspendê-la, enquanto o trapezista dá a impressão de voar. No entanto, cada um trabalha com a queda… nunca contra ela.
Toda a arte consiste em dar-lhe uma forma.
Volto a encontrar aqui a mesma intuição da corrida. O homem que corre nunca deixa de cair… Aprende apenas a cair de outra maneira.
E, de repente, compreendo por que razão o palhaço também pertence a esta família. Julgamos que ele apenas traz… ou provoca o riso. Mas o riso nasce frequentemente de um colapso ou de uma queda, da desajeitada fragilidade de um mundo que perdeu o equilíbrio. O palhaço cambaleia e tropeça onde os outros querem caminhar direitos. Mostra a fragilidade dos apoios e a estabilidade efémera do movimento. Recorda-nos que toda a dignidade permanece vizinha do desastre. A própria expressão o diz: pode-se morrer de rir. Fórmula estranha. Como se o riso já transportasse em si o vestígio daquilo que procura exorcizar.
O circo parece-me então muito menos afastado da morte do que geralmente se acredita. Avança com ela, tal como as caravanas avançam com a sua sombra. Ela acompanha cada número… cada salto… cada voo… cada gargalhada.
Permanece invisível e, contudo, presente. O espectador sente-a… o acrobata também. É precisamente essa proximidade que torna o milagre visível.
O circo transforma o risco em aparição… quando não acontece precisamente o contrário. E, tendo presente essa inversão, pergunto-me se as histórias não procedem de maneira semelhante. Montam os seus chapitôs em terras provisórias e estendem algumas cordas entre o visível e o invisível. Fazem avançar figuras que caem, se levantam, se revelam… um pouco… reaparecem… e depois, misteriosamente, retomam a estrada.
Regresso então a uma questão que me acompanha desde o início.
Para onde quer ir esta história?
Hoje, a pergunta parece-me mal formulada… Eu deveria antes perguntar:
Onde quer esta história… onde pode ela… encontrar apoio?
Pois parece-me menos orientada para um destino do que para um lugar de encarnação. Um lugar onde possa acontecer.
E, contudo, mal escrevo estas palavras, surge uma reserva. Porque uma história que tivesse encontrado completamente o seu lugar tornar-se-ia talvez imóvel.
Seria um monumento?
Também esta ideia me atravessa o espírito. E, no entanto, tudo o que recebo de Lucian resiste ao monumento. Tudo permanece em movimento… permanece na passagem… como um arquipélago… um chapitô… um trapézio entre dois apoios… um pé… um passo à procura da sua terra.
Como se o ser que cai descobrisse subitamente a sua forma num corpo efémero.
Fecho aqui este caderno com uma estranha impressão. Ainda não compreendo o sentido profundo desta história… pelo menos não o suficiente. Apenas começo a apreender alguns dos seus fragmentos… e talvez, sobretudo, a compreender o que me acontece quando a leio.
Deixo gradualmente de olhar para o caminho.
Aprendo a olhar para onde ponho os pés.Non
…tudo reaparece noutro lugar… sob outra forma… com as mesmas figuras… com outros nomes. Como se a história permanecesse idêntica enquanto muda constantemente de lugar.
Talvez seja também por isso que Pinóquio o Outro me regressa tantas vezes ao espírito, suspenso de um trapézio desligado. O trapézio pertence ao mundo do circo… mas desprendeu-se do próprio chapitô.
Flutua entre dois apoios. Entre dois mundos.
Como uma personagem que tivesse abandonado a história que a sustentava, continuando contudo a viver segundo as normas e contingências dessa mesma história.
Reparo também que o circo mantém uma relação singular com a queda. Mostra-a… mas não demonstra nada. Desafia-a e transforma-a. O acrobata parece vencer a gravidade… o funâmbulo parece suspendê-la, enquanto o trapezista dá a impressão de voar. No entanto, cada um trabalha com a queda… nunca contra ela.
Toda a arte consiste em dar-lhe uma forma.
Volto a encontrar aqui a mesma intuição da corrida. O homem que corre nunca deixa de cair… Aprende apenas a cair de outra maneira.
E, de repente, compreendo por que razão o palhaço também pertence a esta família. Julgamos que ele apenas traz… ou provoca o riso. Mas o riso nasce frequentemente de um colapso ou de uma queda, da desajeitada fragilidade de um mundo que perdeu o equilíbrio. O palhaço cambaleia e tropeça onde os outros querem caminhar direitos. Mostra a fragilidade dos apoios e a estabilidade efémera do movimento. Recorda-nos que toda a dignidade permanece vizinha do desastre. A própria expressão o diz: pode-se morrer de rir. Fórmula estranha. Como se o riso já transportasse em si o vestígio daquilo que procura exorcizar.
O circo parece-me então muito menos afastado da morte do que geralmente se acredita. Avança com ela, tal como as caravanas avançam com a sua sombra. Ela acompanha cada número… cada salto… cada voo… cada gargalhada.
Permanece invisível e, contudo, presente. O espectador sente-a… o acrobata também. É precisamente essa proximidade que torna o milagre visível.
O circo transforma o risco em aparição… quando não acontece precisamente o contrário. E, tendo presente essa inversão, pergunto-me se as histórias não procedem de maneira semelhante. Montam os seus chapitôs em terras provisórias e estendem algumas cordas entre o visível e o invisível. Fazem avançar figuras que caem, se levantam, se revelam… um pouco… reaparecem… e depois, misteriosamente, retomam a estrada.
Regresso então a uma questão que me acompanha desde o início.
Para onde quer ir esta história?
Hoje, a pergunta parece-me mal formulada… Eu deveria antes perguntar:
Onde quer esta história… onde pode ela… encontrar apoio?
Pois parece-me menos orientada para um destino do que para um lugar de encarnação. Um lugar onde possa acontecer.
E, contudo, mal escrevo estas palavras, surge uma reserva. Porque uma história que tivesse encontrado completamente o seu lugar tornar-se-ia talvez imóvel.
Seria um monumento?
Também esta ideia me atravessa o espírito. E, no entanto, tudo o que recebo de Lucian resiste ao monumento. Tudo permanece em movimento… permanece na passagem… como um arquipélago… um chapitô… um trapézio entre dois apoios… um pé… um passo à procura da sua terra.
Como se o ser que cai descobrisse subitamente a sua forma num corpo efémero.
Fecho aqui este caderno com uma estranha impressão. Ainda não compreendo o sentido profundo desta história… pelo menos não o suficiente. Apenas começo a apreender alguns dos seus fragmentos… e talvez, sobretudo, a compreender o que me acontece quando a leio.
Deixo gradualmente de olhar para o caminho.
Aprendo a olhar para onde ponho os pés.Non

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