— Pinóquio o Outro começa pouco a pouco a compreender algo de estranho acerca de si mesmo…
— …aqueles que procuram apreendê-lo querem sempre recortá-lo.— Querem saber de onde ele vem, em que momento se torna o Menino Lua, em que instante preciso deixa de ser marioneta, quando começa Don Carotte, onde termina a figura e onde começa a pessoa.
— Creio que procuram pontos fixos no seu devir, como se a sua existência pudesse ser detida numa série de imagens imóveis.
— Mas Pinóquio o Outro sente obscuramente que algo se perde cada vez que se procede assim.
— Compreende que a sua vida não é feita de estados separados.
— Não é uma sucessão de máscaras alinhadas umas após as outras numa vitrina.
— Parece-se mais com uma travessia.
— Algo flui através dele. Uma duração. Uma transformação contínua que não pode ser dividida sem ser destruída.
— Então o paradoxo de Zenão poderia tornar-se, para ele, uma espécie de armadilha metafísica.
Pois todos aqueles que procuram compreender Pinóquio o Outro agem um pouco como Zenão observando Aquiles.
— Dizem: aqui ele era marioneta.
— Depois aqui torna-se criança.
— Depois aqui viajante.
— Depois aqui Don Carotte.
— Depois aqui outra coisa ainda.
— E cada vez que acreditam ter alcançado a sua identidade, ela já se deslocou para outro lugar.
— O próprio Lucian cai por vezes nesta dificuldade quando copia os retratos para melhor compreender.
— Ele imobiliza figuras. Extrai posições do grande movimento interior do ser que persegue. Os desenhos tornam-se então comparáveis aos “pontos geométricos” de Bergson…
— …estações visíveis arrancadas ao fluxo vivo.
— Ora Pinóquio o Outro nunca habita essas estações.
— Ele atravessa-as.
Caderno de Félix
É por isso que Igniatius reconhece nas cópias de Lucian algo do original. Não porque Lucian tivesse reproduzido fraudulentamente uma imagem, mas porque, ao copiar, começou ele próprio a entrar no movimento que procurava observar do exterior. A sua mão seguiu uma trajetória interior antes mesmo de o seu espírito a compreender inteiramente. É aqui que Bergson encontra profundamente Pinóquio o Outro.
O trajeto visível, os desenhos, as figuras, os nomes, as metamorfoses, pertencem ao espaço. Pode-se recortá-los. Classificá-los. Justapô-los. Pode-se dizer: eis o retrato número um, depois o dois, depois o três. Eis o Menino Lua antes de Don Carotte. Eis Pinóquio antes da Criança.
Mas o verdadeiro movimento de Pinóquio o Outro pertence à duração. E essa duração não se deixa decompor. Pois Pinóquio não se torna outro por adições sucessivas. Nunca abandona inteiramente aquilo que foi. A marioneta permanece na criança. A criança permanece em Don Carotte. A madeira permanece na carne. O fogo permanece na madeira afogada. Todas as figuras continuam a viver simultaneamente numa espessura de tempo que se assemelha mais a uma estratificação vulcânica do que a uma linha.
É por isso que as personagens parecem por vezes existir juntas, como numa espécie de física quântica poética. Não se substituem verdadeiramente. Atravessam-se.
Assim, o grande erro dos observadores talvez consista em querer compreender Pinóquio o Outro como uma trajetória, quando ele é um percurso. Observam a linha deixada atrás dele em vez de sentir o próprio movimento da sua passagem.
E Pinóquio o Outro acaba por pressentir isto: cada vez que se procura fixá-lo definitivamente numa identidade, transforma-se num objeto imóvel. Numa figura morta. Num retrato congelado.
Ora ele só existe verdadeiramente na passagem.
Como a chama só existe na sua combustão.
Como o mar só existe no seu movimento.
Como a palavra só existe enquanto atravessa alguém.


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