Onde
Félix prossegue o seu pensamento que, lentamente, flutua entre duas
águas… em profundidades múltiplas, e… talvez, se aproxima da vera causa.
Caderno de Félix
Igniatius
existe abundantemente nos desenhos, nas palavras relatadas, nos
cadernos, nos efeitos que produz em Lucian. Mas existe muito pouco no
mundo propriamente dito. Eu poderia quase dizer que possui mais
realidade narrativa do que realidade objetiva. E é precisamente aqui que
a noção de vera causa se torna perigosa…
Pois
a hipótese segundo a qual Igniatius seria uma figura produzida por
Lucian, consciente ou inconscientemente, começa a explicar regiões
inteiras desta história que até agora pareciam independentes.
Ela
ilumina porque todas as figuras parecem comunicar secretamente entre
si… Porque Pinóquio o Outro parece já conter o Menino Lua… Porque Don
Carotte se assemelha a uma continuação deslocada da Criança… Porque cada
personagem parece menos nascer do que emergir lentamente de outro…
Porque os próprios desenhos dão por vezes a impressão de se lembrarem
uns dos outros… Como se uma única fonte alimentasse todas essas
ressurgências.
Desconfio
enormemente deste tipo de unificação. O espírito humano adora fabricar
centros ocultos. Prefere uma origem única à desordem das
multiplicidades. Conheço demasiado bem esse perigo para não o temer
imediatamente em mim mesmo.
E
no entanto… Quanto mais avanço, mais a hipótese ganha poder
explicativo… Ela irradia. Age exatamente como a vera causa de Herschel.
Não porque prove definitivamente seja o que for, mas porque começa a
produzir novas coerências em zonas que pareciam separadas.
O
mais perturbador permanece isto: Igniatius… ou o próprio Lucian,
parecem por vezes descobrir as suas personagens depois de as terem
produzido.
Como
se o autor não precedesse inteiramente as suas figuras… Como se estas
regressassem até ele a partir de um lugar onde ele já não as controla
totalmente.
Então surge outro pensamento, ainda mais inquietante. E se Igniatius não fosse simplesmente uma invenção?
E se toda figura suficientemente investida acabasse por adquirir uma forma de autonomia psíquica?
Afinal,
o próprio Menino Lua parece ter nascido de uma tal condensação
progressiva. Não como uma personagem decidida de antemão, mas como uma
presença emergindo lentamente do cruzamento de desenhos, olhares,
cópias, narrativas e silêncios. Talvez seja isso que assusta Lucian… não
o facto de ter inventado Igniatius…
Talvez
seja sentir que uma figura inventada possa começar verdadeiramente a
escapar-lhe. Como se certas criações, quando se tornam verae causae na
vida psíquica, deixassem pouco a pouco de ser simples ficções para se
tornarem agentes ativos capazes de organizar a perceção, as memórias, os
encontros e até as formas futuras da própria linguagem.
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