mercredi 27 mai 2026

(86) A abracadabrante história da Criança Lua

 
 
 
Onde Félix prossegue o seu pensamento que, lentamente, flutua entre duas águas… em profundidades múltiplas, e… talvez, se aproxima da vera causa.
 
Caderno de Félix
 
Igniatius existe abundantemente nos desenhos, nas palavras relatadas, nos cadernos, nos efeitos que produz em Lucian. Mas existe muito pouco no mundo propriamente dito. Eu poderia quase dizer que possui mais realidade narrativa do que realidade objetiva. E é precisamente aqui que a noção de vera causa se torna perigosa…
Pois a hipótese segundo a qual Igniatius seria uma figura produzida por Lucian, consciente ou inconscientemente, começa a explicar regiões inteiras desta história que até agora pareciam independentes.
Ela ilumina porque todas as figuras parecem comunicar secretamente entre si… Porque Pinóquio o Outro parece já conter o Menino Lua… Porque Don Carotte se assemelha a uma continuação deslocada da Criança… Porque cada personagem parece menos nascer do que emergir lentamente de outro… Porque os próprios desenhos dão por vezes a impressão de se lembrarem uns dos outros… Como se uma única fonte alimentasse todas essas ressurgências.
Desconfio enormemente deste tipo de unificação. O espírito humano adora fabricar centros ocultos. Prefere uma origem única à desordem das multiplicidades. Conheço demasiado bem esse perigo para não o temer imediatamente em mim mesmo.
E no entanto… Quanto mais avanço, mais a hipótese ganha poder explicativo… Ela irradia. Age exatamente como a vera causa de Herschel. Não porque prove definitivamente seja o que for, mas porque começa a produzir novas coerências em zonas que pareciam separadas.
O mais perturbador permanece isto: Igniatius… ou o próprio Lucian, parecem por vezes descobrir as suas personagens depois de as terem produzido.
Como se o autor não precedesse inteiramente as suas figuras… Como se estas regressassem até ele a partir de um lugar onde ele já não as controla totalmente.
Então surge outro pensamento, ainda mais inquietante. E se Igniatius não fosse simplesmente uma invenção?
E se toda figura suficientemente investida acabasse por adquirir uma forma de autonomia psíquica?
Afinal, o próprio Menino Lua parece ter nascido de uma tal condensação progressiva. Não como uma personagem decidida de antemão, mas como uma presença emergindo lentamente do cruzamento de desenhos, olhares, cópias, narrativas e silêncios. Talvez seja isso que assusta Lucian… não o facto de ter inventado Igniatius…
Talvez seja sentir que uma figura inventada possa começar verdadeiramente a escapar-lhe. Como se certas criações, quando se tornam verae causae na vida psíquica, deixassem pouco a pouco de ser simples ficções para se tornarem agentes ativos capazes de organizar a perceção, as memórias, os encontros e até as formas futuras da própria linguagem.
 
 

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