“Para compreender que a capacidade de uma hipótese maior para resolver enigmas menores e independentes pode constituir um argumento a favor da sua robustez, é preciso deter-se num último conceito metodológico proposto pelo astrónomo e epistemólogo William Herschel na sequência de uma intuição de Sir Isaac Newton. Trata-se do conceito de vera causa, ou ‘causa verdadeira’, na linguagem de Newton. Herschel dá uma definição formal a este conceito ao propor que, numa teoria, os agentes causais — aqueles que supostamente explicam os fenómenos — devem ser verae causae, isto é, causas que, segundo esta definição, existem e agem, mas que além disso produzem outros fenómenos para além daqueles que conduziram à sua formulação. Dito de forma mais clara, a vera causa é uma causa explicativa caracterizada pelo facto de ser capaz, por irradiação, de explicar factos novos e diferentes daqueles que presidiram à sua descoberta. É um conceito poderoso para avaliar a qualidade e a força de uma ideia.”
Baptiste Morizot, O Olhar Perdido, Actes SudOnde Félix, diante dos desenhos que Lucian lhe enviou, reflete acerca das causas e dos efeitos que eles produzem…
Caderno de Félix
Volto incessantemente a esta ideia de Herschel que Lucian me evocara outrora quase distraidamente, como se tivesse para ele apenas um interesse marginal. A vera causa. A causa verdadeira. Aquela cuja realidade se reconhece pelo facto de explicar mais do que aquilo que inicialmente deveria explicar.
Começo a perguntar-me se toda esta questão dos desenhos não estará precisamente a tomar essa forma inquietante.
Pois afinal, o que tenho realmente diante de mim?
No começo havia apenas alguns desenhos. Depois cadernos. Depois palavras relatadas. Depois esta figura do Menino Lua. Depois Don Carotte. Depois Pinóquio o Outro. Depois os papagaios. Depois o próprio Igniatius. E de cada vez Lucian parecia querer manter uma separação prudente entre esses seres, como se fossem presenças distintas das quais ele não passaria de uma testemunha embaraçada… Contudo, algo resiste… e regressa… A mesma lógica atravessa todas as figuras. Reencontro por toda a parte os mesmos núcleos: o silêncio antes da palavra, o retrato antes do rosto, a personagem que procura sair da sua própria figura, o cativeiro no livro, os mantos demasiado grandes, os olhares dissimulados, as travessias iniciáticas, os limiares, as ruínas, as ilhas, as espirais, os duplos, as vozes retransmitidas por outras vozes.
No início pensei simplesmente reconhecer obsessões de estilo. Isso acontece com escritores ou desenhadores. Certos temas repetem-se porque constituem o seu mundo interior. Mas aqui a repetição possui outra natureza. Age menos como decoração do que como uma força de propagação. É isso que me perturba.
A minha hipótese, prolongando a de Igniatius, segundo a qual Lucian seria o autor dos desenhos, deveria inicialmente explicar apenas uma coisa muito limitada: a estranha proximidade entre certos esboços encontrados junto dele e aqueles que Igniatius afirmava ter descoberto na galeria. Ora, essa hipótese começa agora a iluminar fenómenos muito mais vastos. Explicaria o embaraço de Lucian quando fala de Igniatius. Explicaria a sua recusa quase excessiva em reconhecer certas semelhanças. Explicaria sobretudo esta impossibilidade recorrente da presença de Igniatius.
Anoto cuidadosamente esta palavra: impossibilidade.
Cada vez que interrogo Lucian sobre detalhes concretos relativos a esse homem, algo se retrai. Não como uma mentira comum. Antes como uma construção que tem dificuldade em sustentar o peso da sua própria materialidade.
Igniatius existe abundantemente nos desenhos, nas palavras relatadas, nos cadernos, nos efeitos que produz em Lucian. Mas existe muito pouco no mundo. Poderia quase dizer que possui mais realidade narrativa do que realidade objetiva. E é aqui que a noção de vera causa se torna perigosa.
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