«A meio do caminho da nossa vida,
encontrei-me numa floresta escura,
porque a via direita estava perdida.
Ah! quão difícil é dizer
o que era essa floresta selvagem, áspera e forte,
que reacende o medo no pensamento!
Tão amarga é ela que pouco falta para ser a morte;
mas, para falar do bem que ali encontrei,
direi as outras coisas que nela vi.
Não saberia dizer como nela entrei,
tão cheio de sono estava
no instante em que abandonei o verdadeiro caminho.
Mas, quando cheguei ao pé de uma colina,
onde terminava aquele vale
que me trespassara o coração de espanto…»
encontrei-me numa floresta escura,
porque a via direita estava perdida.
Ah! quão difícil é dizer
o que era essa floresta selvagem, áspera e forte,
que reacende o medo no pensamento!
Tão amarga é ela que pouco falta para ser a morte;
mas, para falar do bem que ali encontrei,
direi as outras coisas que nela vi.
Não saberia dizer como nela entrei,
tão cheio de sono estava
no instante em que abandonei o verdadeiro caminho.
Mas, quando cheguei ao pé de uma colina,
onde terminava aquele vale
que me trespassara o coração de espanto…»
Dante, Inferno, Canto I
Caderno de Félix
Começo, com dificuldade, a compreender por que razão esta história por vezes me cansa tanto quanto me prende. Julgava estar a seguir uma narrativa. Descubro gradualmente que estou a atravessar um território do qual ninguém, talvez, possui o mapa completo. Lucian escreve-me. Igniatius fala com Lucian. Os desenhos falam com Igniatius… tanto quanto falam dele… ou dos outros. A Criança-Lua parece atravessar os desenhos… Don Carotte atravessa a Criança-Lua… e Pinóquio o Outro surge em regiões onde, se acreditarmos no bom senso, ainda não deveria encontrar-se. E eu, do meu gabinete, tento compreender onde ponho os pés.
Poderia dizer que esta história avança. Seria verdade. Poderia também dizer que gira em círculos. Isso também seria verdade. Por vezes chego a pensar que ela se parece mais com um arquipélago do que com uma estrada… Surge uma ilha… instalo-me nela… e construo uma hipótese… depois outra ilha emerge da névoa e toda a paisagem se reorganiza. Este fenómeno repete-se com uma regularidade quase inquietante.
Durante muito tempo, pensei que esta história procurava a sua forma. Hoje duvido disso. Suspeito que, embora a sua forma ainda me escape… ela já existe.
O problema está noutro lugar. O que falta talvez não seja a forma. Talvez seja o lugar. Não falo de um lugar geográfico. Falo de um lugar capaz de receber o peso daquilo que acontece.
A distinção parece-me importante. Um pé não procura a ideia do solo. Procura o solo. Procura o lugar exato onde poderá pousar.
Esta história dá-me frequentemente a impressão de ser esse pé suspenso sobre o vazio. O passo anterior ainda existe. O seguinte permanece invisível. E, no entanto, o movimento continua.
Penso muitas vezes na caminhada. Cada passo é um desequilíbrio aceite. O corpo abandona um apoio antes de ter encontrado completamente o seguinte.
Existe um instante em que pertencemos simultaneamente àquilo que deixamos e àquilo que alcançamos. Esse momento é o instante da passagem. Talvez seja isso que leio há meses sem conseguir nomeá-lo… uma imensa região de passagem.
Uma história que vive no entre-dois.
A corrida leva esta lógica ainda mais longe. Por vezes, ambos os pés deixam o chão. Durante um instante, o corpo parece voar… Contudo, está a cair. Nunca deixou de cair. O apoio seguinte não elimina a queda. Dá-lhe uma forma.
Esta imagem regressa frequentemente quando penso em Lucian. Regressa ainda mais quando penso em Igniatius. Ambos dão por vezes a impressão de flutuar acima das suas próprias hipóteses. Depois a gravidade regressa. Uma palavra. Um desenho. Uma carta. Um detalhe quase insignificante. Algo os chama de volta à terra.
Pergunto-me então se a verdade funciona assim. Imaginamos frequentemente que ela nos eleva. Talvez ela nos atraia. Não para baixo, mas para um lugar. Para um solo suficientemente real para suportar o nosso peso.
Ao escrever isto, penso imediatamente no Arquipélago. Esse país impossível que regressa incessantemente nos desenhos. Essas ilhas vulcânicas onde quase nada cresce. Essas terras austeras e as suas falésias. Essas antigas escoadas de lava. Esses ventos rodopiantes e essa impressão constante de que tudo poderá desaparecer amanhã.
Compreendo hoje melhor por que razão este cenário me parece tão justo. A história não procura uma planície fértil.
Procura uma terra rara, como uma fissura no basalto ou uma bolsa de solo capaz de acolher uma raiz. Por vezes, uma única basta.
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